Almir Ribeiro Americo, chefe do escritório da Apex-Brasil em Moscou:

Sobre o futebol brasileiro, a indústria aeronáutica, Jogos Olímpicos no Rio e as relações entre a Rússia e o Brasil

(in Russian, in English)
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Em Moscou caiu a primeira neve. Deslizamos com cuidado pela calçada em direção ao centro de negócios e shopping «Smolenskiy passazh». O shopping abre as suas portas com hospitalidade nos seduzindo com luxo das lojas. Resistindo à tentação, seguimos em frente – ao centro de negócios. Será que o shopping mais refinado pode se comparar com a possibilidade de visitar o Brasil? Pois, não o Brasil mesmo, mas o escritório da agência Apex-Brasil, aonde o chefe do escritório nos convidou.

Os fincionários nos encontram na entrada, ajudam a nos limpar da neve, tirar os casacos. As paredes pitorescas azuis céu, os cartazes vistosos com sol brilhando, poltronas de couro verde criem uma ilusão de estadia neste distante país exótico. O cheiroso café brasileiro reforça a impressão e cria um ambiente para uma conversa cordial e amigável.

Sobre a linguistica

Senhor Americo, você fala perfeiamente russo. Onde e como é que aprendeu a língua?

Me formei em Física. Quando terminei a universidade, decidi continuar a formação em Moscou. Comecei a estudar russo no curso preparatório antes de ingressar no doutorado na MGU. Já foi há muito tempo, foi na década de 1990... Infelizmente, não consegui terminar o doutorado. Recebi uma proposta interessante e voltei ao Brasil. Quando o comércio entre os nossos países começou a desenvolver, fui convidado para trabalhar numa empresa russa que tinha fornecedores no Brasil. Assim, no exercício das minhas funções oficiais, fui para a Rússia de novo. Foi assim o meu segundo encontro com o seu país. Claro, já era uma Rússia diferente do que tinha conhecido no início da minha carreira. Com cada visita à Rússia, entendia que o país estava mudando para melhor. Por isso, quando o diretoria da Apex-Brasil decidiu abrir escritório em Moscou e me propôs para trabalhar aqui, aceitei prontamente.

Talvez russo não seja a única língua estrangeira que você domina?

Além do russo, falo bem espanhol. O espanhol é muito parecido com o português, a minha língua materna, por isso é bem fácil aprendê-lo. Falo um pouco inglês... (Um pouco não, fala muito bem mesmo! – interrompe emocionalmemte Yulia, assistente do senhor Americo). Está bom! Na verdade, seria contente se a gente aqui no escritótio falasse mais russo. Mas, infelizmente, os meus colegas não me deixam aperfeiçoar o meu nível do russo: todo mundo fala perfeitamente português.

Conhecimento da língua portuguesa é requisito na sua Agência internacional?

É desejável. No Apex-Brasil o controle externo é muito forte. Toda a correspondência é mantida em português. A tarde (quando começa o expediente do escritório brasileiro) nos contactamos, discutimos vários assuntos e resolvemos os problemas. O conhecimento de português facilita a comunicação. Acho que o escritório russo da Apex-Brasil tem muita sorte: é de admirar quantos professionais que falam perfeitamente português a Rússia tem. Trabalhamos muito com as empresas russas, por exemplo, nas feiras comerciais, e vemos que o nível professional do pessoal é muito alto em todas as areas.

Na sua opinião, qual é a diferença na mentalidade russa e brasileira? Quais são as diferenças culturais?

Vim à Rússia pela primeria vez num periodo complicado para o país: uma situação económica e política grave, inconsistência, incerteza no dia seguinte. Isso tudo marcou as pessoas. Antes, muita gente pensava que era melhor viver em qualquer outro lugar além da Rússia. Agora está tudo diferente. As pessoas são mais toleraveis, abertas e amigáveis, se respeitam a si e respeitam o seu país. Isso nos deixa dialogar abertamente de igual para igual. Gosto muito disso.

E quanto à mentalidade... (refletindo.) Sabe, acho que temos muito em comum. Nós também passamos por muitas dificuldades mas sempre encontramos forças para superar tudo. Acho que os nossos povos compartilham uma atitude comum para com a vida. Talvez não haja nenhumas barreiras culturais. Para mim é muito fácil e agradável viver aqui. Tenho a certeza que é assim para outros brasileiros também.

O país da indústria aeronáutica e da indústria ligeira

Conte, por favor, o que faz a Apex-Brasil? Qual é o objetivo do trabalho do seu escritório e como você o realiza?

Apex-Brasil foi fundada faz 13 anos. O Brasil é um país com uma economia muito forte mas, infelizmente, bastante fechada. Admitam, é raro ainda ver os produtos brasileiros nas lojas russas. O volume de exportações na economia brasileira é ainda insignificante. Para apoiar o desenvolvimento do comércio externo do Brasil, a aproximação entre as atividades empresariais brasileiras e internacionais foi criada a nossa Agência. Aqui na Rússia (e nos países da CEI) o nosso objetivo é apoiar a exportação, criar ambiente para desenvolvimento do negócio brasileiro na Rússia. Isso inclui a pesquisa de distribuidores potenciais, parceiros, investidores, desenvolvimento e gerência dos projetos tamanhos de economia externa e de comercio.

O seu escritório atrai investimentos para as esferas diferentes da economia. Quais são os setores mais perspectivos?

O Brasil continua sendo um dos principais produtores dos alimentos no mundo. Os alimentos brasileiros serão sempre de interesse para o comercio internacional. A propósito, poucos sabem que além dos produtos tradicionais – leite, carne, café – o Brasil, produz, por exemplo, vinho. Claro, numa escala menor do que a Argentina e o Chile, pois o nosso clima é um pouco mais quente do que é necessário (rindo). Porém, há uns regiões no Brasil, nas montanhas, onde este setor está crescendo.

Poucos sabem também que o Brasil produz aviões. A «Embraer» é a terceira maior empresa, depois da «Boing» e «Airbus», que já faz cerca de 50 anos que produz aviões inclusive para exportar. Claro, não para a Rússia, por causa da concorrência muito forte, mas na Europa e nos EUA as pessoas frequentemente viajam nas nossas aviões nem imaginando que estas são produzidas no Brasil.

O setor de construção de máquinas também é desenvolvido. Porém no mercado internacional não é fácil competir com a produção asiática mais barata, em particular, chinesa.

Quanto à indústria ligeira, tradicionalmente o Brasil é famoso pelo seu lindo calçado de qualidade. A propósito, 30% do calçado da empresa «Ekonika» é produzido no Brasil, muitos artigos da marca Calvin Klein são feitos no Brasil também.

O nosso objetivo é exatamente apoiar de todas as maneiras as relações entre os negócios do Brasil e da Rússia, convidar os brasileiros para a Rússia e os russos para o Brasil, se conhecer, estabelecer contatos.

Terceirização da contabilidade

Accounting Outsourcing Para uma empresa estrangeira é bastante difícil compreender todas as complexidades da contabilidade e sistema tributário, - diz o senhor Americo, - fazer tudo direito, segundo a legislação russa. Também é importante fazer os nossos relatórios russos corresponder aos relatórios do nosso escritório matriz.

Achamos sinceramente que foi a nossa sorte termos encontrado a empresa 1С-WiseAdvice. Acreditem, já temos muita experiência do trabalho na Rússia que dá para comparar. Quando os nossos colegas brasileiros de outras empresas compartilham a sua experiência, vemos que a qualidade dos serviços prestados pela 1С-WiseAdvice é relativamente mais alto. Admiramos não só a tecnologia dos processos mas também a simpatia pessoal, prontidão dos funcionários da empresa a responder rápida, polida e profissionalmente às nossas solicitações mais urgentes e as vezes até insólitas.

Qual dos projetos da Apex-Brasil faz você especialmente orgulhoso?

Na verdade, estudamos constantemente o mercado. Todos os anos aparecem projetos interessantes. Agora, por exemplo, na Rússia se desenvolve a indústria alimentar. Muitas marcas novas surgiram nos supermercados. A produção na Rússia aumenta e, respetivamente, exige mais ingredientes novos. Convidamos então os produtores russos para o mercado brasileiro. Os empresários russos combinaram com os nossos fornecedores e começaram a comprar ingredientes para as suas produções. Para nós é um projeto interessantíssimo – ele lança novos rumos para o negócio entre os nossos países. As empresas brasileiras fornecem matéria-prima de alta qualidade aos produtores russos que por sua vez produzem bens da qualidade respectiva.

Num dos discursos durante a Mesa redonda «Perspectivas de desenvolvimento das relações com os países da América Latina» você fez uma brincadeira que a Rússia e o Brasil estão namorando, claro, mas já era tempo de se casarem. O que você quis dizer com a palavra «casamento» e será que os países já «se casaram»?

Mencionei, sim, uma frase da entrevista dum diplomata russo que disse que os nossos países parecem dois namorados felizes que não reparam nos defeitos do outro.

Pois, o casamento... Acho que fica para o futuro (rindo). As relações entre o Brasil e a Rússia sempre foram boas, mesmo na época da ditatura militar no Brasil. Acho que, os países ainda não se casaram porque a Rússia e o Brasil são os países muito autossuficientes e, do ponto de vista econômico, ainda não dependem um do outro. Como costumamos dizer, com o Brasil é bom, porém sem o Brasil dá para viver. Assim que as nossas relações atingirem o nível quando será difícil continuar um sem o outro, passaremos do estado dos «namorados» ao relacionamento mais sério – a dirigir a economia juntos.

Esporte nunca basta

Infelizmente, pelas razões conhecidas, as Olimpíadas no Rio de Janeiro foram dolorosas para os russos. Mesmo assim (sendo uma «noiva ciumenta») deixe perguntar: como os Jogos influenciaram o clima de investimentos do Brasil?

Acho que influenciaram da maneira positiva. Todo o mundo viu o Brasil. Infelizmente, as Olimpíadas coincidiram com um período quando o país tinha muitos problemas políticos, sociais e econômicos. Isso não nos deixou aproveitar o máximo desta possibilidade. Todavia, graças aos Jogos Olímpicos, a infraestrutura do Brasil atraiu muitos investimentos. Realizamos muitos projetos interessantes, convidamos muitas pessoas interessantes. Atualmente, o Brasil é a oitava economia do mundo. Já era o tempo de realizar um evento assim no nosso país pois merecemos isso. Sou otimista. Tenho a certeza que a Rússia realizará a Copa do Mundo. E, sem dúvidas, terá muito sucesso! Não tenho nenhumas dúvidas sobre isso. A Rússia e o Brasil são os países potentes. De vez em quando, precisamos de ter direito para receber os eventos esportivos desta escala.

E você esteve no Brasil durante os Jogos Olímpicos?

Infelizmente, não. Trabalhei aqui, mas assistimos a tudo na televisão. Gosto mais de assistir ao esporte. Embora, claro, às vezes corre, ande de bicicleta.

É verdade que no Brasil dizem: «Se não sabe jogar futebol, vá estudar!»?

Pois... talvez... Como eu já disse, o Brasil é um país de contrastes: temos muitos ricos e muitos pobres. Felizmente, o número de pobres tem reduzido ultimamente, porém há uma parte considerável da população para qual é difícil subir a escada social. Futebol pode acelerar este processo. Ele serve duma espécie da mobilidade social para jovens. Sabe, há muitos exemplos dos rapazes das famílias muito pobres que se tornaram estrelas do futebol mundial. Mas é necessário estudar, mesmo tendo talentos esportivos.

Pensando no futuro

Quais são os seus planos para o ano que vem? Conte, por favor, sobre os projetos mais interessantes?

Já estou na Rússia faz 6 anos. Para mim é muito curioso observar o que acontece e participar ativamente na vida dos nossos países, compartilhar experiência e conhecimentos.

No âmbito de BRICS se realizam muitos eventos interessantes. Queria assinalar que em 2015 durante a presidência da Rússia no grupo BRICS, todos os eventos foram realizados perfeitamente aqui na Rússia. Para nós é um desafio. Nós continuaremos a estudar o mercado, a preparar novos projetos especiais que serão mutuamente vantajosos para os nossos países. É um objetivo complexo. Os empresários no Brasil e na Rússia colaboram lentamente, até a contragosto, com os parceiros externos. Devemos «derreter» este gelo, provar a ambos os países que precisam um de outro. Podemos dar vantagens não só às próprias empresas mas também aos nossos países no sentido global. O Brasil e a Rússia têm um potencial ilimitado de desenvolvimento e é preciso usá-lo.

Não queremos ir embora e a nevada na rua nos lembra do Réveillon. Por isso já no hall, nos despedindo, fazemos mais uma pergunta.

ApexBrasil

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Senhor Americo, como você festeja passagem de ano? O Brasil tem algumas tradições ligadas a este feriado?

Sim, claro! (sorrindo.) Tradicionalmente, celebramos o Natal porque o Brasil é um dos maiores países católicos no mundo. O Natal é uma festa muito tranquila, cómoda e familiar. Enquanto o Réveillon, ao contrário, os brasileiros preferem passar numa companhia barulhenta e alegre dos amigos, queimando fogos de artifício numa praça centras do Rio de Janeiro... ou Moscou, porque não!

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